As novas peças de xadrez nas eleições

electOUT_36pages-3São jovens e preparam-se para votar pela primeira vez neste domingo. Vão estar em grande número para dizerem o que pensam? Será que têm alguma opinião?

 

Kelvin Costa

 

Apesar de se esperar que a juventude de Macau se torne num dos principais grupos com influência nos resultados eleitorais, os jovens são no geral criticados por serem politicamente insensíveis. Saber como ganhar estes votos tem vindo a revelar-se uma questão determinante para conseguir obter um lugar na Assembleia Legislativa e alguns candidatos têm consciência disto.

Aos 19 anos e caloiro no curso de Direito, Owen Chio vota pela primeira vez nestas eleições. Não sabe como votar, nem qual candidato merece o seu apoio. “Não sei muito sobre os candidatos e estou a planear ler os programas políticos de cada um. Ainda tenho tempo de estudar os perfis das listas antes das eleições”, diz.

Chio prefere ler as notícias diárias de Hong Kong, em vez das de Macau. Admite não ter uma noção clara da cena política local. A maior parte das notícias de Macau chega-lhe através do jornal Ou Mun ou pelos noticiários do canal em chinês da TDM, e o estudante confessa-se “um pouco farto” dos principais meios de comunicação por “não conseguirem explicar de forma clara os conflitos de interesse que estão no meio”.

Apesar de Chio não ter ainda decidido em quem vai votar, as associações políticas conservadoras não são a sua praia. “Se estão realmente aqui pelas pessoas, não precisam de fazer tantas ‘tentativas desnecessárias’ para conseguirem apoios no último, mas decisivo, momento”, afirma.

Chio acredita que a experiência política dos candidatos é importante. “Interessa-me o que fizeram por nós, especialmente pelos jovens. Nós continuamos atentos. Os meus critérios são muito simples: mostram respeito pelo princípio ‘Um país, dois sistemas’? Apresentam melhores soluções quando fazem queixas ao Governo?”.

Ryan Chan, um estudante de 19 anos do ensino secundário, mostra-se relutante quando questionado sobre qualquer assunto relacionado com as eleições. Desde o início da entrevista, deixa muito claro que não vai votar. “Sei que o meu voto é crucial mas tenho medo de que possa votar no candidato errado. Ao fim e ao cabo, sou apenas um estudante e não sei muito sobre política”, refere.

A única figura política que Chan consegue lembrar-se é o deputado Chan Meng Kam. É o nome que ouve com frequência no seu bairro. “A minha família é natural da província de Fujian, como ele. Nós [as pessoas de Fujian], por norma, ajudamo-nos uns aos outros. É isto que temos em comum. Mas não penso que ele [Chan Meng Kam] possa representar-me e expressar as minhas preocupações”, acrescenta.

Ainda que a política não seja tão distante e estranha como pensa, Ryan Chan diz que, simplesmente, não quer envolver-se. O estudante justifica: “As coisas tornam-se tão complicadas na política. Não é adequado para alguém como eu e na minha idade fazer comentários. Não é o tempo oportuno, talvez quando for mais velho e tiver um contacto mais próximo com a sociedade”.

Mas não será já tarde demais? “A minha personalidade é esta. Não gosto de me preocupar. Pode dizer-se que sou bastante politicamente insensível, admito – a não ser que aconteça alguma coisa grave, aí dou atenção, como aconteceu com o escândalo das campas. Em relação às eleições, a posição política dos candidatos, realmente, não me interessa”, adita.

Chan argumenta que a quantidade de tempo que dedica aos estudos influencia a atitude que tem em relação à política. Diz sentir-se muitas vezes demasiado cansado para se preocupar com a actualidade. A escola que frequenta pede aos alunos para lerem o Wen Wei Po, um jornal pró-Pequim de Hong Kong,  subscrito pela instituição, que distribui cinco cópias por cada turma. Chan conclui: “Sou um bom ouvinte quando os meus amigos falam sobre as eleições”.

Vicky Tam tem 21 anos, é licenciada e faz voluntariado numa associação de juventude ligada aos Kai Fong. Já decidiu a quem vai dar o seu primeiro voto nestas eleições: “Sei muitas coisas sobre o candidato [Ho Ion Sang] e ele é descontraído, amigável e acessível. Oferece-nos, com frequência, oportunidades para aprendermos mais sobre os valores da vida”.

Tam assume um papel activo na associação, onde encontra os melhores amigos e um sentido de pertença. Esteve envolvida na organização de actividades como espectáculos de talentos, concursos de dança, visitas a orfanatos e viagens de intercâmbio. “A maior parte de nós junta-se para conseguir algo que queremos fazer pela nossa sociedade e encontramos aqui a nossa felicidade”, desenvolve.

Vicky Tam segue Ho Ion Sang no Facebook e está constantemente a ser informada sobre as actividades mais recentes do candidato. Sobre o que a motiva a escolher Ho Ion Sang, Tam diz que tem que ver, em parte, com o nível de exposição do cabeça-de-lista. “Como utilizadora frequente do Facebook, vejo muito os posts e as fotografias onde ele está a entregar petições ou envolvido em acções contra a injustiça social, o que me impressiona muito. Vejo que está a lutar por um futuro melhor. Os outros, raramente os vejo a fazerem o mesmo”, observa.

Jacky Chu, de 23 anos, está também entre os novos eleitores e mostra-se hesitante em votar. Não acredita que o seu voto vá mudar o quer que seja. “Qualquer decisão tomada pela Assembleia é controlada e manipulada pelos que estão no poder, atrás das cortinas. No final, as coisas acontecem conforme o planeado”, critica.

Chu apoia o campo pró-democrático. Na opinião do estudante, os candidatos devem mostrar honestidade e integridade, ser coerentes com aquilo em que acreditam e não podem voltar com a palavra atrás. “Observo um candidato a partir do momento em que irrompe na cena política. Tomo em consideração tudo que fez”, explica. Jacky Chu diz ter pouca esperança nestas eleições. Sente que, mesmo com o campo pró-democracia a ganhar mais dois lugares, não haverá diferenças. E defende: “São ainda os grupos conservadores que dominam as decisões no fim. As eleições não são diferentes de um jogo de xadrez onde somos todos peões a andar de um lado para o outro”.

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