Factor 80

electOUT_36pages-1A geração pós anos 1980 está em maioria no grupo de eleitores que, pela primeira vez este ano, pode votar. A estatística é favorável aos candidatos pró-democracia, mas há cartas mais altas na mesa. À abstenção junta-se a força mobilizadora dos patrões dos casinos e das associações tradicionais no recenseamento – uma combinação que faz antecipar pouca ou nenhuma mudança para os próximos quatro anos.

 

Sónia Nunes

 

Nestas eleições legislativas, batem-se recordes. Nunca houve tantas listas a concorrer pelo sufrágio directo (20), nem tantos eleitores. O número de votantes aumentou 10,18 por cento só no espaço de um ano, até 31 de Dezembro de 2012 – a data limite para os residentes com capacidade eleitoral se recensearem e poderem escolher um candidato neste domingo. Em causa estão 14 lugares numa Assembleia Legislativa (AL) com espaço para 33 deputados.

Os novos votantes somam-se em 26.909. A maior parte é da República Popular da China e jovem. O principal bloco (53,4 por cento) tem menos de 30 e destaca-se num grupo de eleitores mais velhos, dos 30 aos 72 anos (46,6 por cento) e que, pela primeira vez, podem votar. As estatísticas parecem favoráveis a um candidato: Jason Chao, cabeça de lista da Liberais da Nova Macau e um dos destacados líderes da geração nascida na década de 1980. “Os eleitores que votam pela primeira vez tendem a escolher listas mais radicais. Há mais vantagens para os candidatos jovens”, observa o comentador político Camões Tam, ao diminuir o capital eleitoral de Sandro Kou, o líder da lista Acções Inovadoras e ex-membro da Nova Juventude Chinesa.

“É um falso democrata”, diz Camões Tam. O professor da Universidade de Ciência e Tecnologia explica: “É demasiado novo para estar à frente de uma lista mais à esquerda, como a dos Operários. Ele tem outra função que é a de separar, tirar votos”. “É uma força destruidora”, diz Tam.

“Os jovens são capazes de fazer uma escolha esclarecida”, afirma Bill Chou, especialista em ciência política que dá aulas na Universidade de Macau e é politicamente próximo de Jason Chao. Os jovens de Macau, continua, são também “mais influenciados pelo contexto político de Hong Kong e terão tendência para votar nos candidatos mais progressistas”. “Chao defende valores mais liberais, como os direitos LGBT, que são bastante chamativos para os jovens” e não só, entende Bill Chou, que antecipa uma transferência de votos dentro da base eleitoral da Associação Novo Macau. “Alguns eleitores ficaram desiludidos com a abordagem mais conservadora de Au Kam San e Ng Kuok Cheong”, destaca.

A Novo Macau tem hipóteses de conseguir chegar ao quarto deputado? Larry So, comentador político e professor no Instituto Politécnico de Macau, duvida. “Os grupos pró-democratas têm amigos e apoiantes, mas estão em desvantagem em relação aos outros. Não têm uma base nem tão forte, nem tão extensa”, compara.

A taxa de abstenção é a variável que falta ter em conta quando se olha para o perfil de quem, pela primeira vez, tem direito a voto.

 

Jovens abstencionistas

 

Apesar de estarem em maioria entre os novos eleitores, são poucos os jovens que votam, segundo So e Chou. O núcleo duro dos novos votantes que neste domingo vai escolher uma lista ou está alinhado com o patronato ou foi arregimentado pelas associações pró-sistema – uma tese que, a confirmar-se, abre pouca margem a surpresas na distribuição dos mandatos na nova AL.

Bill Chou encontra dois motivos para os jovens terem mais queda para o abstencionismo do que os eleitores mais velhos que votam pela primeira vez. Por um lado, “a generalidade da juventude não está interessada na política”; por outro, “muitos jovens não têm uma relação próxima com as associações, que são uma importante força mobilizadora do eleitorado”.

As listas tendem a aproximar-se das organizações sociais para garantirem apoiantes. Dois exemplos, com base nas eleições de 2005 e 2009: A Associação dos Cidadãos Unidos de Macau teve o apoio dos grupos de Fujian que mobilizaram os sócios para votarem em Chan Meng Kam (também à frente do casino Golden Dragon) e a Aliança para o Desenvolvimento Democrático, liderada por Angela Leong, contou com as associações de trabalhadores da STDM. Já no período de pré-campanha deste ano, a Associação de Conterrâneos de Jiangmen, que tem como vice-presidente o candidato Mak Soi Kun, distribuiu oito milhões de patacas por cerca de 14 mil membros.

A recompensa material, comenta Chou, substituiu a ideologia no vínculo às associações. “A maioria hoje apoia uma associação ou um candidato não por partilhar dos mesmos ideais. A consideração é antes utilitária. Aquela associação oferece vantagens, nem que sejam viagens baratas ao exterior”, observa.

Entre os novos eleitores, Larry So identifica três grupos: os jovens com consciência cívica (em minoria, destaca), os imigrantes com residência permanente e os que foram incentivados pelos candidatos (no papel de patrões ou representados por associações) a recensearem-se. “Há uma grande percentagem de pessoas que foram atraídas para o sistema eleitoral simplesmente porque receberam um vale de compras. Destes, mais de 80 por cento vai votar. E em quem lhe pediram para votar”, aponta.

Há um estudo que pode fazer o contraponto com as previsões de baixa participação dos jovens nas eleições. Foi feito em 2009 por Malte Philipp Kaeding, que deu aulas na Universidade Baptista de Hong Kong e entrevistou 59 estudantes da Universidade de Macau, entre os 18 e os 20 anos. A maioria escolheu formas mais activas de participação política (como votar) em detrimento das petições e abaixo-assinados.

 

A casa

ganha sempre

 

Entre os grupos que mobilizaram residentes para o recenseamento eleitoral, Larry So circunscreve um: o do jogo. “Os grandes patrões dos casinos estão a contar com estes votos. É bastante claro que estão numa posição bastante vantajosa”, constata.

Camões Tam concorda e diz que esta é a “principal preocupação” nestas eleições. “A hipótese de os casinos conseguirem elevar para sete ou oito o número de representantes na AL é bastante alta”, defende. E antecipa: “Quantos mais forem, mais as propostas [de lei] aprovadas vão proteger os interesses de uma minoria de Macau, que são os ricos”.

Os jovens eleitores não são suficientes para inverter o peso do sector empresarial e pró-Governo na AL, nem a massa de votantes que quer uma reforma política de fundo e um modelo de desenvolvimento sustentável consegue ganhar das elites conservadoras. “Não há hipóteses de mudanças”, vaticina Camões Tam.

Bill Chou concretiza: “Mesmo que os 14 deputados eleitos pela via directa sejam todos do campo pró-democracia, continuariam em minoria”. “Nada iria mudar”, reforça.

Os resultados de domingo deverão dar em mais do mesmo na AL, segundo os três observadores. Ainda assim, Tam, Chou e So declaram que estas eleições vão ser interessantes – quanto mais não seja para assistir ao jogo de poder entre as forças pró-sistema, divididas entre os casinos, a frente pró-Pequim e as associações de conterrâneos do Continente. Esta é a esfera onde a concorrência é real.

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