Duas faces da mesma moeda

 

electOUT_36pages-6electOUT_36pages-7São amigos de infância, trocam elogios mas não escondem que são adversários. Pereira Coutinho, cabeça de lista da Nova Esperança, e Rui Leão, pela Observatório Cívico, são os candidatos portugueses nestas legislativas. A diferença é de estilo. Um diz que se fala demais na Assembleia Legislativa, o outro defende uma nova forma de fazer oposição. Um quer bater com a porta, o outro quer mantê-la aberta. A responsabilização dos titulares dos principais cargos públicos e o regime de incompatibilidades dos deputados são interesses em comum.

 

Sónia Nunes

 

– Comecemos pelas apresentações. Conhecem-se? São amigos?

Rui Leão – Conhecemo-nos desde a infância. Crescemos juntos em Macau, em famílias também próximas.

Pereira Coutinho Somos óptimos amigos.

– Ficou surpreendido ao ver Rui Leão na política?

P.C. – Não. É extrovertido e tem vindo a pronunciar-se sobre questões que têm que ver com a qualidade de vida da população. Isto é importante porque, em Macau, faltam pessoas com esta disponibilidade. Macau transformou-se numa sociedade materialista: tudo tem que ver com dinheiro. As pessoas tornaram-se mais egoístas. A candidatura do Rui Leão [como número três de Agnes Lam] veio contribuir para o dinamismo político de Macau.

– Rui Leão, que opinião tem de Pereira Coutinho enquanto deputado?

R.L. – Tenho um enorme apreço pelo trabalho que faz e pela forma corajosa como enfrenta alguns assuntos. É preciso desdramatizar e renovar a leitura que se faz sobre o que é a actividade política e a opinião. Esta é a principal razão para ter entrado nesta corrida.

–  Partilha desta ideia de que as pessoas estão desligadas da política?  

R.L. – Esse afastamento faz parte da cultura de Macau. O facto de ter havido um enriquecimento muito grande na cidade não facilita. Quando há um enriquecimento tão grande, há necessidade de mudar as políticas sociais. Esta mudança não tem sido operada com a celeridade que seria de esperar.

– Estes efeitos do crescimento económico rápido reflectiram-se na comunidade portuguesa?

P.C. – Não iria por esse caminho. Muita parra, pouca uva, fala-se demais. A questão essencial é simples: enquanto não houver responsabilização dos titulares dos principais cargos, nomeadamente do Chefe do Executivo e dos secretários, não vamos a lado nenhum. A irresponsabilidade conduz ao abuso de poder e à corrupção – e nós estamos todos tão mal por não haver uma responsabilização dos titulares dos principais cargos.

– Voltando à pergunta. Que problemas identifica hoje na comunidade portuguesa?

P.C. – São problemas estruturantes. A falta de democracia leva a que a comunidade portuguesa e macaense esteja de rastos em termos políticos. Isto tem consequências ao nível social, da habitação, saúde, transportes, por aí fora. Dizia-me um colega deputado que tivemos de aguentar os portugueses durante 400 anos porque eram os piratas do mar. Pensávamos que depois da RAEM seria melhor. Mas os piratas das montanhas, que vieram cá para baixo, roubaram os talheres e os pratos. Agora estamos sem comida. Não vale a pena continuar a criticar sem irmos à origem do problema. Há deputados que agem como actores de teatro. Na Assembleia Legislativa (AL), só quatro é que representam a população. O resto é uma farsa.

R.L. – As questões de fundo que afectam a comunidade portuguesa são as que afectam a população em geral e têm que ver com a qualidade de vida. Mas há uma outra questão que, de certo modo, marginaliza a comunidade e que tem que ver com o facto desta discussão se passar praticamente em língua chinesa. Neste sentido, tem feito muita diferença ter um deputado lusófono porque conseguimos acompanhar mais o trabalho da AL. A Agnes Lam, apesar de ser chinesa, fala uma língua que nós, portugueses, entendemos [o inglês] e tem uma forma diferente de levantar questões. Faz a diferença sentir uma identificação com as pessoas que participam neste debate.

– Apontou para a barreira da língua. Que política deve haver para o português?

P.C. – Temos uma falta gravíssima de intérpretes tradutores e com qualidade. Isto só se resolve se a língua portuguesa for ensinada a partir do ensino infantil, como disciplina obrigatória. Isto depende de uma vontade política. Não se pode fingir que se ensina português e, depois, as pessoas não conseguirem emprego porque, afinal, não sabem nada de português.

R.L. – A questão do ensino da língua tem de ir lado a lado. Haver uma presença real da língua chinesa – não do mandarim, mas do cantonense – no ensino do português é igualmente importante. A eficácia da participação cívica e social da comunidade portuguesa passa muito pelo bilinguismo. A presença da língua portuguesa no ensino chinês é importante porque estamos com uma enorme falta de recursos ao nível da tradução, um serviço que é como sangue para Macau. Devíamos ser todos bilingues porque o nosso contributo na construção de Macau passa por sermos capazes de nos integrar.

– Os atrasos nos pedidos de autorização de residência em Macau ou de renovação do BIR são uma preocupação assumida na comunidade portuguesa.

P.C. – Isto é permanência a mais dos secretários, que entram em rotinas. Ele [secretário para a Segurança, Cheong Kuok Va] não despacha os processos, tem pilhas de pedidos.

– A questão é mais burocrática do que política?

P.C. – Há uma certa reticência em autorizar os pedidos dos portugueses. É uma questão que tem de ser resolvida com a mudança dos secretários. Passaram-me pelas mãos casos de portugueses que tiveram de esperar sete, oito meses. Não se faz. É uma pouca-vergonha: temos uma plataforma em Macau para os países de língua portuguesa e, pelas costas, prejudicam os portugueses. Há sectores tradicionais que não gostam que haja portugueses a mais cá.

R.L. – É inaceitável que isto não seja um assunto resolvido. Se Macau, em termos de discurso político oficial, posiciona-se como uma plataforma de cooperação entre a China e os países lusófonos, tem de manter esta relação de amizade e dar a possibilidade de a comunidade se poder ir renovando e fortalecendo.

–  Por quê avançar com uma candidatura pelo sufrágio directo, contra listas com cinco milhões de patacas de orçamento, para chegar a uma AL que tem poderes muito limitados?

P.C. – À partida, os lugares já estão definidos. Angela Leong vai, de certeza, meter o segundo [deputado]. O outro vai para Mak Soi Kun, que fez uma doação de oito milhões de patacas. Há também Kuan Vai Lam que tem por detrás um forte poderio financeiro, dos maiores de Macau. Nestas eleições, o dinheiro conta. Vai manter-se tudo na mesma. Sinto-me motivado a continuar pelo trabalho nos últimos oito anos. O que fiz é reconhecido pela comunidade macaense, o que me dá força. Não é fácil um português ser líder de uma lista, nesta altura do campeonato.

R.L. – No anúncio da minha candidatura, disse logo que não tinha perspectiva absolutamente nenhuma de ser eleito. Mas faz muita diferença que haja no círculo de eleição directa pessoas que lutem por uma transformação. Esta transformação é um processo difícil porque passa por muitas batalhas perdidas. Mas tem de haver mais vozes com esta consistência.

P.C. – Um deputado só exerce com honestidade o trabalho se não tiver fardos nas costas. A AL é inoperante porque a maioria dos deputados tem de ceder quando há conflitos de interesses. Não vamos atrás de utopias: a AL neste momento não consegue fazer nada.

– Então por que quer continuar lá?

P.C. – As pessoas votam em mim. Cumpro o meu dever. Tenho uma missão. Sou o único deputado português da RPC. As pessoas têm de votar em quem tem nacionalidade portuguesa, não em quem, no dia das eleições, diz que vai apoiar a comunidade portuguesa, defende a Escola Portuguesa e vem com essas cantigas. Não é só a lista do Rui Leão, são todas.

R.L. – Não julgo que a nacionalidade seja uma questão importante para o eleitor. Tem mais que ver com a forma de estar. Não estou nesta lista por acaso: tenho uma afinidade muito grande com Agnes Lam. A plataforma [Associação Energia Cívica] organizou, em média, um seminário por mês sobre actualidade política. Os assuntos abordados estão no programa da Observatório Cívico, que reflecte as preocupações de pessoas que têm muita afinidade com a comunidade portuguesa.

– Por exemplo?

R.L. – Ao nível da cidade, há a questão da sustentabilidade que não foi absolutamente observada até ao momento. É também preciso tornar o sistema educativo mais criativo e estimulante para docentes e alunos. Tem também de haver uma relação mais interactiva entre a produção artística e as comunidades. Muita da transformação que se pode fazer nas próximas gerações é através do sector da cultura e da educação.

– O regime de incompatibilidades dos deputados funciona ou deve ser revisto? Faria sentido que o cargo fosse exercido em regime de exclusividade?

R.L. – É um assunto complexo, mas a longo prazo era o que faria sentido. Primeiro, para retirar a questão do conflito de interesses, que atravessa praticamente todos os assuntos. Segundo, para dar tempo. É humanamente impossível ser-se deputado, avaliar aquela quantidade de propostas de lei, quando se tem reuniões e trabalhos além da AL.

P.C. – Há também uma questão política. Há deputados que são membros do Conselho Executivo e é por isso que saem escândalos como o do arquitecto Eddie Wong, com 230 milhões de bandeja [pelo projecto do hospital das Ilhas].  Um deputado não pode ser membro do Conselho Executivo. Como é que um deputado pode fiscalizar a acção governativa quando já deu uma opinião sobre determinado assunto? É anedótico. A AL, para muitos, é um part-time.

R.L. – É por isso que é importante ter mais pessoas na AL com uma atitude séria, com esta prioridade de prestar um serviço cívico e levar para a frente os diplomas mais importantes e que não podem ser comprometidos. O voto em Agnes Lam é importante porque o Coutinho tem o lugar assegurado.

– Não sendo deputado, acompanhou a discussão da lei do património e do planeamento urbano. Foram propostas comprometidas, para usar a sua expressão?

R.L. – De fora, é difícil ver isso. Mas há questões nas duas leis que podiam e já tinham sido redigidas de forma mais correcta e séria. Foram alterados artigos e não percebi porquê. A questão que se levantou, no final, sobre as zonas de protecção [que deixam de ser obrigatórias] preocupa-me muito porque põe em causa toda a lei.

P.C. – Estamos atravessar momentos decisivos em Macau. Temos de ter vozes portuguesas e macaenses na AL. A Agnes Lam é uma mulher muito bonita e eficaz mas não tem aquela coragem de ir até ao fundo das questões e levantar-se para sair da sala, como eu.

– É assim?

P.C. – Não espero que o Rui concorde. É como estar numa corrida de carros: a diferença que nos marca é a velocidade e a força para pegar no carro.

R.L. – Estas duas listas apresentam-se no mesmo espectro. Mas é altura de ter outro tipo de vozes, com outra retórica e maneira de fazer oposição. Há uma transformação que é urgente fazer em Macau e que tem que ver com a consciência cívica. Nós não temos uma grande estrutura por detrás. A falta de enquadramento legal para a campanha também acaba por ser terrível: vicia completamente o jogo.

P.C. – A Comissão para os Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa [CAEAL] tem de ser um organismo permanente. Tem de trabalhar durante todo o ano para elevar a educação cívica.

R.L. – A questão da educação cívica é mais importante. Aí é que a gente pode passar a mensagem do que é a importância e inalienabilidade do voto.

– Perdeu-se uma oportunidade de dar mais valor ao voto quando se discutiu a reforma do sistema político?

P.C – Claro. Andamos a brincar com coisas sérias quando crianças assinam a proposta do 2+2+100. Foi papa feita e a população teve de engolir. Há pessoas que usam o princípio ‘Um pais dois, sistemas’ para enriquecerem.

R.L. – Não se vai corrigir o sistema de uma vez. O importante é que haja um sistema de responsabilização de todas as chefias e níveis de Governo.

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