Opinião | O voto preparado

opinião MJ_cutMaria Caetano

 

Um dos instrumentos de aferição da eficácia dos diferentes sistemas políticos consiste em estabelecer uma correlação entre o modelo de participação pública adoptado – do mais autoritário para o mais aberto – e os índices de riqueza dos territórios: por norma, o PIB per capita, ou outros mais integrados que permitam também medir as desigualdades. Os números duros de Macau não questionam o sistema que temos, legitimam-no antes.

Teoricamente, somos levados a saltar para a conclusão de que “no que está bem não se mexe”. Afinal, a política é, deve ser, pragmática e, mais dubitavelmente, orientada para a criação de riqueza das populações – condição para a distribuição de vantagens sociais, eliminação de desigualdades e progresso dos povos. A ideologia de um melhor sistema – o que melhor garanta a distribuição de poder – não deve tentar-nos a negligenciar os fins que o sistema, em última análise, serve.

Há anos, a reputada publicação The Economist, dizia ao mundo que Macau talvez fosse a única economia monolítica, quase exclusivamente apoiada no jogo, a ser sustentável – provando-se contra todas as teorias e contra o senso-comum. Quem nunca viu um unicórnio que atire a primeira pedra.

No fim de contas, falamos de condições óptimas. E de um efectivo milagre. A crença neste sistema, uma aparição sobre as oliveiras, é do domínio da fé, e não da razão mais pura.

Aquando da discussão das reformas eleitorais – que introduziram como única alteração o aditamento de lugares de representação política sem promover qualquer mudança na proporção das forças que têm o privilégio de participar no sistema –, a questão económica era o que no fundo dava corpo ao sentido de harmonia que a maior parte dos intervenientes com palavra no processo pugnava por preservar.

Os participantes com voz efectiva no sistema – o Governo local e o Governo Central – propuseram-se zelar pela manutenção do estado de coisas na economia. A intenção fez eco por todos aqueles que são admitidos na mesa do poder local por duas razões simples. Primeira, para assegurar apoio e manutenção de quota de participação. Segundo, porque a economia local é para todos os que aqui vivem, e mesmo para os principais actores, uma caixa negra, um sistema regido por regras que desconhecemos, cuja estabilidade depende de fora.

É disto que se trata afinal. Mas, ainda que de forma obscura e toldada pela condição mitológica do sistema, a percepção latente é a de que a sustentabilidade da região e a compreensão clara das regras do seu funcionamento são, e foram desde sempre, urgentes.

A expressão “Macau governada pelas suas gentes” e o objectivo de “transparência” sempre propalado têm de encontrar substância – e, primeiro, no sistema político. É nele que está reservada a possibilidade de vivência autónoma e conservação futura de um poder local significativo no quadro da integração nacional. É também nele que está em potência a capacidade de, na ausência de condições óptimas, se evitar a entropia e se assegurar a estabilidade independente.

Contra os números duros que traduzem uma sustentabilidade ilógica do ponto de vista das capacidades internas, Macau deve tratar a sua impotência cuidando, primeiro, da maturidade do sistema político, mais do que culpabilizar a população por uma alegada falta de maturidade cívica. Só abdicando das múltiplas dependências que foram criadas ao longo dos anos, a região estará livre para cuidar de si. Isto significa abdicar da concentração do poder e confiar nas gentes às quais compete governar Macau.

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